Publicado em 05/11/2026

Hoje, 5 de novembro, completam 11 anos do rompimento da barragem do Fundão, controlada pela empresa Samarco Mineração, no subdistrito de Mariana, Bento Rodrigues (MG). Para além de um marco temporal, a data escancara uma ferida aberta que se estende até o litoral capixaba. Mais de uma década depois, as lutas das pessoas atingidas por memória, verdade e justiça permanecem vivas, assim como as consequências da tragédia.
O crime socioambiental, considerado um dos maiores da história do Brasil, despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos de minério de ferro no meio ambiente. O mar de lama soterrou comunidades inteiras, tirou a vida de 19 pessoas e devastou a bacia do Rio Doce ao longo de mais de 650 quilômetros, até atingir o Oceano Atlântico, no Espírito Santo, destruindo ecossistemas e inviabilizando os modos de vida e de trabalho de pelo menos 2,2 milhões de pessoas em até 49 municípios.
Neste cenário de violações prolongadas, assistente sociais têm desempenhado um papel estratégico, atuando lado a lado com as comunidades através das Assessorias Técnicas Independentes (ATIs), instrumento de luta popular dos territórios, para que suas vozes sejam ouvidas.
Um crime ainda em andamento
Conversamos Verônica Medeiros Alagoano, assistente social e doutora na área, que compõe a coordenação geral da Entidade Gestora dos projetos de demandas das comunidades das cinco regiões atingidas pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Fundão em Brumadinho. Para Verônica, o desastre não ficou no passado. Ao acompanhar de perto a realidade dos territórios, afirma: “O rompimento da barragem em novembro de 2015 é um crime ainda em andamento”.
Ela explica que as comunidades lidam não apenas com as perdas originais, mas com os danos aprofundados por ações que, teoricamente, deveriam reparar o problema. “De forma contínua, os danos perduram e se aprofundam. As atividades econômicas não foram retomadas, a água continua imprópria para consumo humano, animal e plantação, e as comunidades ribeirinhas ainda convivem com o rejeito, que a cada nova enchente extravasa e amplia seu alcance. O risco à saúde ainda é uma grande preocupação, com relatos de diversos quadros de adoecimento físico e psíquico.”
Verônica relembra que, ao longo destes 11 anos, os diversos arranjos políticos e jurídicos falharam em garantir a participação efetiva de quem mais perdeu com o crime. “Desta ausência de escuta das comunidades e de seus desejos, nasceu o direito à Assessoria Técnica Independente (ATI), fruto da luta e organização das pessoas atingidas.”
A presença de assistentes sociais nas equipes multidisciplinares das ATIs tem se revelado um forte espaço ocupacional de alinhamento ao projeto Ético-Político da profissão. Ao articular a escuta qualificada, a produção de laudos críticos e o fortalecimento da mobilização popular, as(os) assistentes sociais são peças importantes no combate às investidas do capital, em defesa da verdadeira justiça ambiental e a reparação integral das comunidades.
“O Serviço Social tem sido reconhecido como um dos campos que contribuem para os debates sobre os direitos das populações atingidas. Essa contribuição parte da compreensão das múltiplas expressões das vulnerabilidades sociais, sobretudo do empobrecimento vivenciado no contexto pós-rompimento”, detalha Verônica. Ela destaca que a atuação profissional se materializa na elaboração de relatórios técnicos sobre os danos, na articulação com a rede socioassistencial e, acima de tudo, no apoio direto aos processos de organização e mobilização social.
O novo cenário de repactuação e o controle social
Recentemente, a luta por reparação entrou em uma nova fase. Com a homologação do Acordo de Repactuação do Rio Doce, em novembro de 2024, houve uma transição no modelo executivo: as ações, antes centralizadas na Fundação Renova, passaram a ser conduzidas por órgãos governamentais.
A psicóloga Luisa Vitral de Siqueira, que atua na ATI da Cáritas, como Coordenadora operacional, explica que esse novo momento exige vigilância redobrada. O acompanhamento tem sido feito por meio de Instâncias de Participação Social, que reúnem o poder público e representantes das comunidades.
“A atuação da Cáritas-MG busca assegurar a equiparação técnica e informacional das comunidades. O foco permanente está na garantia do acesso à participação informada das pessoas atingidas, no controle social e na orientação sobre os programas e direitos previstos no acordo”, pontua Luiza.
Para evitar retrocessos e garantir o poder de decisão sobre seus modos de vida e territórios, a mobilização popular precisou se reinventar. “Apesar dos inúmeros desafios e do cansaço das comunidades, os atingidos e atingidas se organizam em estruturas como a Comissão de Atingidos pela Barragem do Fundão (CABF), Grupos de Base comunitários promovidos pela ATI e na participação em instâncias federais e mineiras – Como o Conselho Federal de Participação Social (CFPS) e a Instância Mineira de Participação Social (IMPS). Essa mobilização contínua fortalece a luta coletiva”, afirma.
Memória como ato de resistência
Não deixar o 5 de novembro cair no esquecimento é uma tarefa política. “Preservar a memória de 2015 é essencial para reafirmar o direito à memória, à verdade e à justiça socioambiental, lembrando à sociedade civil e ao poder público que a reparação das perdas na Bacia do Rio Doce ainda é uma luta constante e inacabada”, reflete Luiza.
Para marcar os 11 anos do crime, as comunidades promovem hoje um ato simbólico comunitário em Bento Rodrigues, epicentro do rompimento. A ação, segundo Luiza, foi pensada “em memória ao momento do rompimento e como um ato de resistência junto aos atingidos”. A mobilização conta ainda com uma programação integrada que une universidades, jornais locais e movimentos sociais, buscando dar ampla visibilidade às pautas das comunidades e reforçar que Mariana, e toda a bacia do Rio Doce, resistem e exigem justiça.
Revisite conteúdos que orientam o fazer profissional em contextos de crimes socioambientais
Como forma de complementar as discussões promovidas nesta data, reunimos abaixo os principais conteúdos já publicados pelo CRESS-MG sobre a temática. Convidamos a categoria a revisitar e se apropriar dessas ferramentas de resistência diária:
Crimes ambientais em Mariana e Brumadinho provocam a reflexão
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