Publicado em 21/09/2026

“Enfrentar o capacitismo não significa apenas combater atitudes preconceituosas, significa questionar as relações sociais que produzem o cerceamento da participação em equidade de condições e as desigualdades neste acesso. Significa perguntar por que uma sociedade é construída para determinados corpos e considera outros modos de ser e de viver como inadequados, dependentes”, afirma a conselheira do CFESS Daiane Mantoanelli, que é uma mulher com deficiência. É para este diálogo que o Conselho Federal te convida neste Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, 21 de setembro.
Mas afinal, você sabe por que o anticapacitismo é uma luta de todas as pessoas? Pois o capacitismo não é apenas um preconceito individual: ele é uma expressão das desigualdades produzidas e reproduzidas socialmente, advindo do modo de produção capitalista, como explica Daiane em entrevista especial para a data.
Ela ressalta que o capacitismo se materializa nas relações de trabalho, nas políticas públicas, na educação, na saúde, na cultura e na própria forma como a sociedade define quais corpos são considerados produtivos, autônomos e socialmente desejáveis. É justamente por isso que esse debate tem tudo a ver com o Serviço Social.
Como assistentes sociais se inserem na luta anticapacitista no exercício profissional?
“Nossa categoria atua em espaços atravessados por desigualdades. Isso exige uma postura que vá além de ‘atender a pessoa com deficiência’. É necessário reconhecê-la como sujeito de direitos, sujeito político e constituinte da classe trabalhadora”, explica Daiane.
Para explicar, ela indica algumas dimensões para que cada assistente reflita sobre essa inserção: na defesa dos direitos sociais, identificando e enfrentando barreiras que impeçam o acesso à saúde, educação, assistência social, trabalho, previdência, cultura, moradia e participação política; no atendimento profissional, questionando práticas que infantilizam, tutelam ou culpabilizam a pessoa com deficiência, fortalecendo sua autonomia e seu protagonismo; na acessibilidade (arquitetônica, comunicacional, tecnológica, metodológica e atitudinal), compreendendo que essa não é um favor ou uma adaptação excepcional, mas uma condição para o exercício dos direitos.
“Além disso, é fundamental atentar para o processo de elaboração e implementação das políticas públicas, atuando numa perspectiva de acesso a direitos, participação e emancipação, de modo a romper com o modelo médico da deficiência, ainda vigente no interior dessas estruturas. Ou seja, a gente precisa enfrentar o capacitismo dentro dos próprios espaços de atuação do Serviço Social, em especial quando nós, assistentes sociais com deficiência, encontramos barreiras para exercer a profissão”, alerta Daiane.
Desafios permanecem
A conselheira do CFESS também aponta que fortalecer a organização das pessoas com deficiência é reconhecer que elas próprias produzem conhecimento e formulam as pautas da luta anticapacitista. Segundo Daiane, um dos principais desafios é justamente a distância entre o previsto na legislação e o que se materializa no cotidiano.
“A pessoa com deficiência não vivencia sua vida dividida entre saúde, assistência, educação, trabalho e transporte. Entretanto, muitas vezes, as políticas são organizadas de forma setorial, com pouca articulação entre si. Isso produz uma espécie de ‘peregrinação’ da pessoa pelos serviços públicos para conseguir acessar direitos que deveriam ser garantidos de maneira integrada”, afirma Daiane.
Outro elemento que ela enfatiza é a questão da avaliação da deficiência. Embora a legislação brasileira tenha incorporado o modelo biopsicossocial, ainda existe uma trajetória de avaliações predominantemente centradas no diagnóstico e na perspectiva biomédica. A construção de uma avaliação biopsicossocial unificada permanece em processo de implementação no país, e configura uma bandeira de luta da profissão.
Anticapacitismo não é manual de palavras
Algumas pessoas podem ainda não saber, mas existem expressões que reproduzem preconceitos. Termos como “portador de deficiência”, “pessoa especial”, “deficiente” utilizado para definir a pessoa, ou expressões como “apesar da deficiência”, “sofre de deficiência” e “preso a uma cadeira de rodas” carregam concepções que colocam a deficiência como tragédia, incapacidade ou algo que precisa ser superado. Da mesma forma, expressões como “isso é coisa de retardado” ou “dar uma de autista”, utilizadas de maneira pejorativa, também reproduzem o capacitismo.
“Mas precisamos ter cuidado para que o anticapacitismo não se transforme simplesmente em um manual de palavras que podem ou não podem ser utilizadas. A questão central é compreender o que existe por trás da linguagem. É perceber que determinadas palavras expressam uma concepção de sujeito. E isso vale também para as atitudes. É capacitista decidir pela pessoa com deficiência sem consultá-la; falar com o acompanhante em vez de falar diretamente com ela; presumir que uma pessoa não é capaz de realizar determinada atividade; tocar em uma pessoa ou em seu recurso de acessibilidade, sem autorização; oferecer apoio sem perguntar se ela precisa; ou considerar a acessibilidade como um favor ou uma concessão”, acrescenta Daiane.
É fundamental pesquisar, estudar e procurar saber mais sobre a luta anticapacitista. O Conjunto CFESS-CRESS tem produzido um acúmulo importante sobre o assunto, fruto de construções coletivas, da participação efetiva de assistentes sociais com deficiência, nos encontros da categoria, materializados no compromisso assumido pela profissão com a busca pela eliminação das barreiras e no enfrentamento ao capacitismo.
“Afinal, a gente constrói uma prática anticapacitista quando passa a identificar as barreiras, questionar nossos próprios preconceitos e compreender que acessibilidade, autonomia e participação não são concessões — são direitos conquistados historicamente”, completa Daiane.
Confira materiais do CFESS relacionados à temática:
Episódio do PodSer sobre avaliação biopsicossocial da deficiência
Série Assistente Social no Combate ao Preconceito – Caderno 9
Livro Anticapacitismo e Exercício Profissional
Glossário em Libras do Serviço Social
Diretrizes dos Comitês no Conjunto CFESS-CRESS
Seminário Nacional Serviço Social e a Luta Anticapacitista
Código de Ética da(o) Assistente Social em audiolivro
CFESS Manifesta “Nossa Liberdade é Anticapacitista” – Dia da(o) Assistente Social 2024
Fonte: CFESS
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