Publicado em 29/06/2026

Foto: Yuri Fernandes
O mês de junho demarca o Orgulho LGBTQIAPN+, um período indispensável para dar visibilidade às lutas e conquistas dessa população. No entanto, enquanto as narrativas de celebração frequentemente focam na juventude, uma pauta urgente permanece silenciada nas trincheiras das políticas públicas: o direito de envelhecer com dignidade. Para as pessoas dissidentes de gênero e sexualidade, especialmente a população trans e travesti, chegar à velhice no Brasil é, para além de um processo biológico, um ato político de sobrevivência.
A geração LGBTQIAPN+ que hoje ultrapassa os 60 anos é uma geração de sobreviventes. São pessoas que enfrentaram o auge da repressão do Estado durante a ditadura militar e a devastação imposta pela epidemia de HIV/Aids nas décadas de 1980 e 1990. Muitas chegam à terceira idade carregando o trauma do luto crônico, a marginalização histórica do mercado de trabalho formal e o rompimento severo de vínculos com suas famílias de origem.
Para o assistente social e conselheiro do CRESS-MG, Euler Antônio Campos, as dinâmicas de opressão, exploração e violências que atingem essa população devem ser compreendidas como desdobramentos diretos da questão social e das desigualdades reproduzidas pelo capitalismo. “A perspectiva materialista-histórico-dialética nos permite compreender que essas vulnerabilidades não decorrem de características individuais dos sujeitos, mas de processos históricos que organizam e produzem diferentes formas de exploração e opressão”, explica.
Para aprofundar essa reflexão, o assistente social resgata que o tratamento dado à diversidade no Brasil é historicamente marcado por um extermínio sistemático, muitas vezes com o aval das instituições. “A geração que consegue chegar à velhice atualmente vivenciou diversas ações do Estado na opressão desse elemento da diversidade humana. Podemos citar as ações da ditadura, por exemplo, que perseguia grupos LGBTQIAPN+ em ações sustentadas pelo que hoje nomeamos de homotransfobia”, aponta Euler. Ele enfatiza também que a própria gestão da epidemia de HIV/Aids nas décadas passadas evidenciou a reprodução dessa opressão, momento em que “o Estado burguês, em diferentes campos, instrumentalizou um componente biológico para oprimir um determinado grupo social”.
Euler lembra que a discriminação não se restringiu ao campo simbólico, mas gerou consequências materiais concretas, e as interrupções na educação, junto à expulsão do mercado formal, resultaram em uma velhice com menor proteção previdenciária, insegurança econômica e maior dependência das políticas públicas. Além da ineficiência do Estado em reconhecer essas especificidades, o assistente social destaca um desafio existencial para essa geração: “Há um lugar social ainda pouco conhecido e que vem sendo produzido nestes grupos, que é compreender o que é ‘tornar-se’ uma pessoa LGBT idosa, quando não se têm referenciais sobre isso”, pontua.
O “retorno ao armário” e a violência institucional
Um dos fenômenos mais cruéis do envelhecimento LGBTQIAPN+ é o chamado “retorno ao armário”. Ao perderem parte de sua autonomia financeira ou de saúde, muitos/as idosos/as passam a depender de Instituições de Longa Permanência (ILPIs), da família ou de redes de cuidadores domiciliares. Nesses espaços, o medo de sofrer retaliações, isolamento, violências morais e até físicas faz com que essas pessoas voltem a esconder sua orientação sexual e identidade de gênero.
O apagamento das identidades nas instituições de cuidado escancara a urgência de debater o envelhecimento plural. As políticas públicas, estruturadas sob uma lógica cis-heteronormativa, muitas vezes falham em reconhecer as “famílias escolhidas”, que são redes de afeto formadas por amigos e parceiros. O que acaba por negar a essas pessoas o direito de opinar sobre tratamentos médicos, visitas e decisões de fim de vida de seus entes queridos.
Para o assistente social Thiago Stephan Moreira, que atua na gestão de políticas públicas em Juiz de Fora, essa realidade reflete o despreparo do Estado e das instituições, que ainda se baseiam em estereótipos. “Existe uma imagem quase universal da pessoa idosa associada àquele senhor branco, cis, hétero e com uma ‘família de margarina’, o que não traduz a diversidade do envelhecimento. Embora a gente reconheça avanços normativos nos últimos anos, eles não se materializaram em práticas concretas. Precisamos de capacitações continuadas das equipes e protocolos antidiscriminatórios para garantir direitos às pessoas que passaram a vida inteira com esses acessos negados”, alerta.
Nesse cenário, Thiago destaca que o Serviço Social possui um papel estratégico na mediação entre os sujeitos e a máquina pública. Mais do que garantir a escuta qualificada para reconhecer a trajetória dessas pessoas e enfrentar a LGBTfobia, a intervenção profissional precisa tensionar ativamente as instituições. “A categoria deve estar nas equipes multiprofissionais instrumentalizando e elaborando protocolos de acolhimento, promovendo processos formativos e produzindo dados, mostrando aos gestores públicos que essa diversidade tem que ser incorporada nos serviços de forma integral”, acrescenta o assistente social.
O compromisso ético-político do Serviço Social na prática
É neste cenário de violações que a intervenção do Serviço Social se faz necessária. O compromisso ético da profissão, sustentado por diretrizes como a Resolução CFESS nº 489/2006, exige que as e os assistentes sociais ultrapassem a ideia reducionista de mera execução de políticas sociais. Segundo Euler Campos, é necessário assumir os pressupostos do Projeto Ético-Político como um valor profissional intrínseco.
No cotidiano dos CRAS, CREAS, unidades de saúde e previdência, esse compromisso se traduz em posturas ativas e críticas. “Isso implica em buscarmos garantir atendimento acolhedor e livre de discriminação, respeitando nome social, identidade de gênero, orientação sexual e as configurações familiares apresentadas pelos usuários, evitando reproduzir pressupostos heteronormativos e cisnormativos”, ressalta o conselheiro do CRESS-MG. Ele destaca ainda o dever profissional de identificar e enfrentar situações de violência institucional presentes nos serviços, além de desenvolver ações educativas junto às equipes multidisciplinares.
O papel da categoria também se estende à construção de registros sociais fiéis à realidade, reconhecendo que a trajetória de pessoas idosas LGBTQIAPN+ é frequentemente atravessada por rupturas e pela necessidade de redes alternativas de apoio. Se trata de uma atuação que fomenta o controle social e fortalece os conselhos de direitos.
Para Raphaela Fini — mulher trans, assistente social do SUS e representante do CFESS no Conselho Nacional LGBTQIAPN+ —, o olhar para a velhice trans exige, fundamentalmente, uma perspectiva interseccional, que considere território, raça e classe. ‘Historicamente, nós não sobrevivemos para envelhecer. Essa é uma geração que pode, agora, chegar à velhice, mas que enfrenta demandas muito específicas, como o rompimento de vínculos familiares em decorrência da transição”, explica. Ela ressalta que, muitas vezes, essas pessoas envelhecem sem rede de apoio, exigindo do profissional um trabalho minucioso e sensível para mobilizar famílias estendidas e garantir proteção social. Como a imensa maioria dessa população foi excluída do mercado formal e da previdência, a intervenção passa, invariavelmente, por assegurar o acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS).
Essa exclusão sistêmica leva ao despreparo dos equipamentos de acolhimento. Raphaela alerta que a divisão estritamente binária de muitos serviços e a falta de letramento das equipes geram barreiras constantes. O medo da violência e do isolamento faz com que muitas pessoas optem por “destransicionar” ou voltar para o armário em busca do mínimo de segurança e dignidade nos espaços institucionais.
Diante desse grave vazio socioassistencial, especialmente nas ILPIs, a profissional reforça que o enfrentamento deve ser coletivo. “O papel do assistente social é tensionar. É participar dos fóruns de idosos, das conferências de saúde e de todos os debates da rede intersetorial para reafirmar o direito dessas pessoas à proteção social”, convoca. “É um compromisso nosso tensionar o Estado e as instituições para que deem respostas efetivas de acordo com as necessidades específicas dessa população. As instituições precisam estar junto ao movimento social para garantir que a resposta estatal seja adequada e assertiva”, defende Raphaela.
Refletir sobre o envelhecimento LGBTQIAPN+ exige reconhecer que a velhice não é uma experiência homogênea, mas atravessada pelas determinações de classe, raça, gênero e sexualidade. Como conclui Euler, a defesa desses direitos não se limita ao combate a práticas discriminatórias pontuais, mas exige uma atuação voltada à emancipação humana. “Mais do que assegurar acesso às políticas sociais, trata-se de afirmar a velhice LGBTQIAPN+ como uma forma legítima de existência, cuja história é marcada por resistências e cuja presença na cena pública desafia as estruturas que historicamente produziram silenciamentos”, finaliza.
O compromisso ético-político convoca o Serviço Social a continuar construindo respostas que assegurem, material e subjetivamente, que envelhecer seja acima de tudo uma experiência de dignidade e pertencimento social, principalmente para a população LGBTQIAPN+.
Reportagem por Pedro Afonso Braga – Assessoria de Comunicação do CRESS-MG
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