Publicado em 21/09/2026
Entre os dias 10 e 13 de setembro, Brasília acolheu o 53º Encontro Nacional do Conjunto CFESS-CRESS, o espaço máximo de deliberação democrática do Serviço Social. O evento, estruturado para definir o planejamento da profissão para o triênio 2026-2029, representou a materialização do compromisso ético-político de uma categoria que atua contra o desmonte dos direitos sociais.
Mais de 400 assistentes sociais participaram dos quatro dias de atividades. Por ser o primeiro Encontro Nacional do triênio, esta edição teve caráter de planejamento, com a definição das ações que orientarão a atuação do Conjunto CFESS-CRESS nos próximos três anos.
Os debates se organizaram por eixos temáticos, nos quais foram avaliados os principais desafios da atualidade. No eixo da Ética e Direitos Humanos, o debate se concentrou no aprofundamento da conscientização e das lutas antirracista, anticapacitista e contra todas as formas de opressão estrutural, incluindo as violências LGBTQIAPN+fóbicas e contra as mulheres. Na Seguridade Social, as discussões alertaram para a urgência da defesa intransigente das políticas públicas, do direito à cidade e da justiça ambiental, combatendo fortemente a privatização, a plataformização dos serviços e o modelo estritamente biomédico de avaliação da deficiência.
O eixo de Orientação e Fiscalização trouxe para a mesa as novas configurações do mundo do trabalho, como a precarização, a “pejotização”, o trabalho remoto e a inteligência artificial, exigindo do Conselho novas respostas normativas e táticas para resguardar as e os assistentes sociais nos seus espaços sócio-ocupacionais de trabalho. Em simultâneo, os debates sobre Formação Profissional focaram na defesa da qualidade do ensino público e presencial, no acompanhamento rigoroso dos estágios e no combate à precarização na graduação e pós-graduação. Por fim, questões centrais do eixo da Comunicação, como o combate à desinformação, e das Relações Internacionais, voltadas ao apoio a populações migrantes, somaram às pautas do eixo Administrativo-Financeiro, cujo foco foi assegurar a sustentabilidade orgânica do Conjunto CFESS-CRESS para que o conselhos continuem fortalecendo as lutas da profissão.
No último dia de atividades, as propostas construídas nos diferentes eixos chegaram à plenária final. Ao todo, foram 68 propostas submetidas à deliberação, que passam a orientar o planejamento do Conjunto CFESS-CRESS para o triênio 2026-2029. Também foram aprovadas 18 moções sobre diferentes pautas relacionadas às lutas da categoria e da classe trabalhadora.
Entre as definições para o próximo período, estão o tema do Dia da e do Assistente Social de 2027, “A gente trabalha com gente”, e o tema da campanha de gestão do Conjunto CFESS-CRESS, com o mote “Trabalho profissional, direitos e defesa do projeto ético-político. Assistente social, classe trabalhadora assalariada”. As escolhas reforçam uma discussão que atravessou todo o evento: as condições em que assistentes sociais exercem seu trabalho e sua condição de trabalhadoras e trabalhadores assalariados.
Carta de Brasília e a voz política do Conjunto CFESS-CRESS
Toda a densidade reflexiva e política concluiu na Carta de Brasília, que sintetizou o tema central do encontro: “Somos classe trabalhadora nas estradas, nos rios, mares e nas florestas reivindicando tempo livre para viver!”. O documento, aprovado pelas delegações, também contempla a defesa da democracia, das políticas sociais e da soberania nacional.
Confira a mesa de abertura do Encontro:
Conferência de Abertura do 53º Encontro Nacional CFESS-CRESS (10 set 2026)
O impacto deste debate em particular foi bem recebido pelos participantes. A assistente social Kaynara, delegada de base por Minas Gerais, destaca este momento como o ponto alto da sua experiência: “Desde o início, os debates foram trazendo a ideia de que somos classe trabalhadora. Foi muito forte me reconhecer naquele espaço também como trabalhadora, entendendo os nossos limites, os nossos cansaços e tudo que a gente vive no dia a dia”.
A riqueza do evento reside no intercâmbio de realidades que alimenta cada um destes eixos de debate. Para a assistente social mineira Brenda, a vivência permitiu transcender a atuação diária. “Esses encontros permitem que a gente tenha acesso a discussões do Serviço Social de ordens diferentes das que estamos acostumados no nosso cotidiano. Amplia a visão sobre as possibilidades de intervenção da nossa profissão”, relata. Ela sublinha o caráter dialético deste processo de planejamento conjunto: “Eu levo o que está acontecendo aqui e trago de volta as experiências dos outros estados. É preciso ter a lucidez de entender que nem sempre o que levamos enquanto estado precisa ser a prioridade do momento, porque existem outras questões que chamam a categoria de imediato para dar uma resposta.”
Esta ocupação dos espaços deliberativos por quem está no terreno não é apenas simbólica, mas tática e necessária. O assistente social Flaviano, também delegado, explica a razão pela qual os profissionais da base precisam disputar ativamente os rumos do Conselho nesses eixos: “É muito importante que profissionais da base estejam nesses espaços porque somos nós que vivemos diariamente a realidade do trabalho, os desafios das políticas públicas e as demandas da população. Nossa participação faz com que essa experiência concreta também esteja presente nos debates e nas decisões da categoria”.
Flaviano deixa um apelo direto para que este compromisso ético-político se mantenha forte nas bases ao longo de todo o triénio: “O Serviço Social não se faz de forma isolada, restrito aos atendimentos individuais e às nossas salas de atendimento. As expressões da questão social que encontramos no nosso cotidiano não são individuais e, por isso, seu enfrentamento também precisa ser coletivo. Participar e se organizar faz parte da história da nossa profissão”, concluiu.
Além das deliberações que orientarão o trabalho do Conjunto, foram definidas as principais atividades nacionais para os próximos anos. Em 2027, Cuiabá (MT) receberá o Seminário Nacional Serviço Social e Relações Étnico-Raciais: povos originários, povos e comunidades tradicionais e população negra. Em 2028, serão realizados o 2º Seminário Nacional Serviço Social na Educação, em São Paulo (SP), e o 2º Seminário Nacional Serviço Social, Relações Fronteiriças e Fluxos Migratórios Internacionais, em Manaus (AM).
Inspirado pela resistência histórica e pelo conceito Freiriano de “esperançar”, o 53º Encontro Nacional consolidou uma agenda de lutas ambiciosa. O CRESS-MG regressa da capital federal com as diretrizes do triênio traçadas e com a certeza inabalável de que a organização coletiva é o único caminho para materializar ações concretas de defesa da emancipação social.
Com o encerramento do Encontro, começa agora o processo de dar concretude às decisões construídas coletivamente. As deliberações aprovadas passam a orientar o planejamento do Conjunto CFESS-CRESS para os próximos três anos e terão desdobramentos nas ações desenvolvidas pelo CRESS-MG em todo o estado.
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