53º Encontro Descentralizado Sudeste consolida pautas para os próximos anos e reafirma: “Neutralidade não é uma opção”

Publicado em 11/08/2026

Foto: Comunicação CRESS-MG

Entre os dias 31 de julho e 2 de agosto, assistentes sociais e representantes dos Conselhos Regionais de Serviço Social de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, além do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), estiveram reunidos, na capital paulista, para o 53º Encontro Descentralizado do Conjunto CFESS-CRESS da Região Sudeste. A atividade integra o processo de organização política do Conjunto e, em 2026, teve como uma de suas principais tarefas a construção coletiva de propostas para o triênio 2026-2029.

Os Encontros Descentralizados acontecem anualmente nas cinco regiões do país e têm caráter preparatório e consultivo para o Encontro Nacional do Conjunto CFESS-CRESS. Além de possibilitarem o aprofundamento de debates sobre questões que atravessam o Serviço Social, são espaços de formação política, troca de experiências e articulação entre os Conselhos Regionais.

Em 2026, esse processo ganha uma dimensão particular. O primeiro ano do triênio é dedicado ao planejamento das ações do Conjunto. É nesta etapa que são construídas propostas a partir das contribuições das regiões e das diferentes realidades vivenciadas pelos Conselhos. Após o debate nos Encontros Descentralizados, elas seguem para apreciação no Encontro Nacional, instância deliberativa do Conjunto CFESS-CRESS.

A metodologia adotada prevê, ainda, que o planejamento considere as condições concretas para execução das ações, buscando propostas objetivas e possíveis de serem realizadas ao longo do triênio. O documento orientador também destaca a importância da construção de consensos regionais e da priorização de questões com repercussão nacional.

Participação de Minas Gerais

A delegação do CRESS-MG participou dos debates realizados durante os três dias, contribuindo com propostas e com a construção coletiva entre os Conselhos da Região Sudeste. Para o presidente do CRESS-MG, Maicom Marques, a participação mineira também demonstrou a importância da articulação regional para o fortalecimento das pautas da profissão.

“Nós fomos participativos em todos os eixos, sempre destacando as nossas propostas, mas também dialogando, articulando e construindo junto com os outros regionais de forma muito democrática e respeitosa. Destaco também o alinhamento de ideias e de compromisso entre as diretorias dos CRESS da região Sudeste, uma estratégia que temos conseguido manter para o fortalecimento do Serviço Social na nossa região e no Brasil como um todo”, avalia Maicom.

A programação teve início em 31 de julho, com atividade cultural conduzida por Afronta MC, artista travesti capixaba, educadora social e mestranda em Serviço Social pela PUC-SP. Na sequência, a mesa de abertura reuniu representações do CFESS, da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), da Executiva Nacional de Estudantes de Serviço Social (ENESSO) e dos quatro CRESS da Região Sudeste.

O primeiro dia também contou com a mesa “Radicalidade Democrática versus Democracia Burguesa: desafios para o trabalho de assistentes sociais”, com a participação de Sandra Vaz, doutora em Serviço Social e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), e Wagner Miqueias, docente de Sociologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e autor do livro Racismo, Escravidão e Capitalismo no Brasil.

O debate de conjuntura integra as orientações para os Encontros Descentralizados por contribuir para a análise dos desafios colocados ao Serviço Social e subsidiar a definição das prioridades políticas do Conjunto.

Debates por eixos orientam construção das propostas

Nos dias 1º e 2 de agosto, as delegações se dividiram para aprofundar os debates dos eixos que organizam a agenda política e institucional do Conjunto CFESS-CRESS. Entre eles, Ética e Direitos Humanos; Administrativo-Financeiro; Seguridade Social; Orientação e Fiscalização; Comunicação; e Formação Profissional e Relações Internacionais.

Os grupos analisaram temas já apontados como prioritários pelo Conjunto e discutiram propostas para o novo ciclo de planejamento. No eixo Ética e Direitos Humanos, por exemplo, estão entre os temas indicados para discussão o processamento ético, o antietarismo, os povos originários, comunidades tradicionais e população negra, as relações entre Serviço Social, violências e inteligência artificial e a população em situação de rua.

Já no eixo de Orientação e Fiscalização, o debate envolveu questões como Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), as novas configurações no mundo do trabalho, a jurisdição de atuação profissional, o Serviço Social na educação básica e no sistema penal.

A construção realizada no Sudeste se soma às contribuições das demais regiões do país e seguirá para o Encontro Nacional do Conjunto CFESS-CRESS, previsto para setembro, em Brasília. É nessa instância que serão debatidas e deliberadas as ações que orientarão nacionalmente o Conjunto.

“Neutralidade não é uma opção”

O encerramento do 53º Encontro Descentralizado foi marcado pela plenária final e pela leitura da Carta de São Paulo, construída coletivamente durante a atividade. Com o título “Neutralidade não é uma opção”, o documento expressa uma leitura crítica da conjuntura e reafirma compromissos históricos do Serviço Social brasileiro com a democracia, os direitos humanos e a classe trabalhadora.

Representantes da delegação mineira também contribuíram para a elaboração do documento. Para Maicom Marques, a carta dialoga diretamente com a direção social assumida pela profissão ao longo de sua trajetória histórica.

“A inexistência da neutralidade reforça o entendimento de que o Serviço Social nunca foi neutro. No processo de reconceituação, nas décadas de 1970 e 1980, a profissão se direcionou para o lado da classe trabalhadora, caindo por terra toda e qualquer pretensão de neutralidade. A carta expressa esse nosso compromisso com uma nova sociabilidade, sem exploração de classe e da força de trabalho, e com respeito à dignidade de todo e qualquer sujeito”, destaca.

A Carta de São Paulo chama atenção para o avanço de projetos políticos que aprofundam desigualdades e retiram direitos da classe trabalhadora, além de denunciar expressões do conservadorismo presentes na sociedade brasileira, como o racismo, a xenofobia, a misoginia, o capacitismo e a LGBTQIAPN+fobia.

O documento também se posiciona contra a violência dirigida à população em situação de rua, a retirada de direitos e a precarização das políticas sociais, além de reafirmar a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), da luta antimanicomial e do enfrentamento ao financiamento público das comunidades terapêuticas.

Ao final de três dias de debates, o 53º Encontro Descentralizado reafirmou a construção coletiva como parte da organização política do Conjunto CFESS-CRESS. As propostas construídas no Sudeste seguem agora para o debate nacional, levando contribuições dos quatro estados para a definição das ações que orientarão o próximo triênio.

Como sintetiza a Carta de São Paulo: “Quem luta por dignidade, não escolhe a neutralidade”.

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