Publicado em 25/07/2026
O 25 de julho é uma data forjada na luta política das mulheres negras latino-americanas e caribenhas. Não se resume a um marco simbólico: representa décadas de organização coletiva em defesa da vida, da dignidade, da justiça racial e da superação das múltiplas formas de opressão produzidas pelo racismo, pelo patriarcado e pelas desigualdades de classe. Para as assistentes sociais, ela reafirma que o enfrentamento ao racismo não é uma agenda circunstancial, mas um compromisso permanente com a defesa dos direitos humanos, da democracia e da emancipação da classe trabalhadora.
A data reúne o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. A data internacional nasceu em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana, consolidando um marco de articulação política das mulheres negras em todo o continente para denunciar o racismo, o sexismo e as desigualdades estruturais. No Brasil, a Lei nº 12.987/2014 reconheceu também a memória de Tereza de Benguela, liderança do Quilombo do Quariterê, símbolo da resistência negra e da luta pela liberdade.
É nesse contexto que se fortalece o Julho das Pretas, agenda política construída pelo movimento de mulheres negras desde 2013, que transforma o mês de julho em um tempo de mobilização nacional, incidência política e produção de propostas voltadas à justiça racial, à reparação histórica e ao Bem Viver. Em 2025, a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver voltou a ocupar Brasília, reunindo milhares de mulheres de todo o país em defesa de um projeto de sociedade fundado na equidade, na democracia e na superação do racismo estrutural. A Marcha reafirmou que não há democracia plena sem justiça racial e que a reparação é condição indispensável para enfrentar as desigualdades produzidas por séculos de escravidão, colonialismo e exclusão.
Essa agenda política dialoga profundamente com o Projeto Ético-Político do Serviço Social. A defesa intransigente dos direitos humanos, da liberdade, da justiça social e da eliminação de todas as formas de preconceito exige reconhecer que o racismo estrutura a formação social brasileira e atravessa cotidianamente as expressões da questão social. Não se trata de um tema periférico ao exercício profissional, mas de um elemento constitutivo da realidade sobre a qual assistentes sociais intervêm.
A maioria das assistentes sociais brasileiras se autodeclara negra, conforme apontado pelo Perfil de Assistentes Sociais no Brasil, publicado pelo CFESS em 2022. Da mesma forma, a maioria da população atendida pelas políticas públicas também é negra. Mulheres negras seguem sendo as principais vítimas das múltiplas violências, ocupam os postos de trabalho mais precarizados, recebem menores remunerações e enfrentam maiores barreiras de acesso aos direitos sociais. Essas desigualdades não são naturais nem ocasionais; expressam a forma como o racismo organiza a sociedade brasileira e produz as demandas que chegam diariamente aos serviços públicos.
Reconhecer essa realidade transforma o exercício profissional. Quando assistentes sociais compreendem o racismo como dimensão constitutiva da questão social, deixam de individualizar o sofrimento e passam a construir respostas profissionais comprometidas com a coletivização das lutas, a defesa das políticas públicas, a articulação com movimentos sociais e organizações da população negra e o fortalecimento da participação popular. A luta antirracista, portanto, não se restringe a posicionamentos individuais: constitui uma direção ética e política indispensável para a efetivação do Projeto Ético-Político da profissão.
Esse compromisso vem sendo fortalecido pelo Conjunto CFESS-CRESS por meio da produção de normativas, referências técnicas e processos de educação permanente. Entre esses instrumentos destacam-se a Nota Técnica sobre o trabalho de assistentes sociais e a coleta do quesito raça/cor/etnia e a Resolução CFESS nº 1.054/2023, que veda condutas de discriminação e preconceito étnico-racial no exercício profissional. Em Minas Gerais, soma-se a esse esforço a brochura “O Enfrentamento ao Racismo no Trabalho de Assistentes Sociais”, fruto do Curso de Educação Permanente desenvolvido pelo CRESS-MG, que reúne fundamentos teóricos, estratégias de intervenção e experiências comprometidas com uma prática profissional antirracista.
Essas iniciativas não se limitam a disponibilizar instrumentos técnicos: reconhecem que a construção de uma prática antirracista exige formação permanente, reflexão crítica e diálogo constante com os acúmulos produzidos pelo movimento negro, especialmente pelo movimento de mulheres negras, cuja trajetória histórica tem ampliado as possibilidades de compreender a questão social brasileira e de construir respostas profissionais comprometidas com a transformação da realidade.
O Serviço Social reafirma seu compromisso com a luta das mulheres negras, reconhecendo que são elas protagonistas da construção de agendas políticas fundamentais para o enfrentamento do racismo, do sexismo e das desigualdades de classe. Celebrar o Julho das Pretas é fortalecer a memória de quem resistiu, reconhecer quem segue construindo caminhos de transformação e renovar o compromisso cotidiano da profissão com uma sociedade livre de toda forma de exploração, opressão e discriminação.
Leia a brochura “O Enfrentamento ao Racismo no Trabalho de Assistentes Sociais”!
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