O peso do minério: dependência, devastação e resistência em Minas Gerais

Publicado em 25/01/2026

Com a proximidade do período chuvoso em Minas Gerais, se manifestam ainda mais os riscos para quem vive sob a ameaça permanente de rompimentos de barragens e outros impactos da mineração. Estes crimes ambientais resultam de um modelo econômico que concentra lucros e distribui destruição, afetando de forma desproporcional povos e comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas. 

Essa importante pauta se alinha, ainda, com o tema abordado ao longo de 2025 pelo Conjunto CFESS-CRESS e que norteou as ações pelo Dia da e do Assistente Social, em maio: “Serviço Social na luta por justiça ambiental para a diversidade dos povos e dos biomas”.

Para refletir sobre esses impactos, o CRESS-MG entrevistou Kathiuça Bertollo, docente do curso de Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), presidenta da Associação dos Docentes da mesma instituição (Adufop), integrante da Frente Mineira de Luta dos Atingidos e Atingidas pela Mineração (Flama) e do Coletivo de Professores/as e Pesquisadores/as do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). 

“O racismo estrutura o capitalismo. O que se denomina racismo ambiental se expressa nos territórios minerados destruindo modos de vida, culturas, tradições e negando direitos, especialmente às mulheres, pessoas idosas e crianças quilombolas, ribeirinhas e indígenas. Nos crimes das barragens de Fundão e Córrego do Feijão, vimos comunidades tradicionais terem seus territórios destruídos e, para reivindicar justiça, lideranças precisaram ocupar tribunais internacionais denunciando a condição de não serem sequer reconhecidas como atingidas.”

Nos territórios minerados, a dependência econômica da atividade se impõe como se não houvesse outra alternativa de geração de renda. O discurso de prefeituras e parlamentares reforça a ideia de que a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) justifica a continuidade da atividade. “A minério-dependência conforma o contexto econômico, político e social nas regiões mineradas. Propaga-se o discurso de que a mineração é necessária, mas as condições laborais são exaustivas e mal remuneradas, configurando uma verdadeira morte em vida”, avalia Kathiuça.

Minas Gerais se ergueu enquanto estado brasileiro a partir das dolorosas e violentas marcas da colonização, do saqueio, da dizimação dos povos originários e da escravização do povo negro. Essas marcas, segundo a pesquisadora, se perpetuam sob os marcos do capitalismo dependente, em novas formas de superexploração do trabalho e intensificação da destruição ambiental.

“Hoje vemos a ofensiva em territórios do sul de Minas e dos Vales para expandir a extração das chamadas ‘terras raras’, ligadas à transição energética. Esses determinantes econômicos só deixam para nossas gentes destruição e morte, sendo uma falácia a ideia de mineração verde e de sustentabilidade”, explicita.

Crise do capital e violações de direitos

A mineração também expressa a crise estrutural do capitalismo, marcada pela busca incessante de novos espaços de exploração. “O rompimento da barragem de Fundão, em 2015, é a expressão máxima do capitalismo dependente em contexto de crise. Desde então, nada melhorou. Pelo contrário, a ofensiva das mineradoras se ampliou, inclusive sobre os direitos trabalhistas, em meio às contrarreformas previdenciárias e trabalhistas. Hoje, isso se expressa na expansão da atividade e na pressão pela exploração de novas fronteiras minerais.”

Os efeitos sobre as comunidades atingidas são profundos e permanentes. “A destruição dos modos de vida comunitários é uma das mais graves violações de direitos humanos. Pessoas idosas perdem suas referências e perspectivas, crianças crescem sob estigmas, como o apelido de ‘pés de barro’, e tradições religiosas, vínculos comunitários e relações com a natureza são desfeitos de forma abrupta. Esse processo provoca adoecimento físico e mental, modificando estruturalmente a vida e as relações sociais”, compartilha Kathiuça.

Nesse contexto, também é evidente o silenciamento de vozes que denunciam injustiças, como reflete a assistente social. “O racismo ambiental se manifesta a partir de tentativas de silenciamento de mulheres negras e indígenas que são lideranças e porta-vozes de suas comunidades. A burocracia que orienta a atuação de diferentes instâncias no processo de reparação é espaço de inúmeras violências de gênero e étnico-raciais.”

Resistência coletiva e desafios ao Serviço Social

Apesar da violência, as comunidades têm construído estratégias de resistência que vão da mobilização em comitês e associações à reivindicação de Assessorias Técnicas Independentes. “As comunidades atingidas têm se organizado em comitês, comissões e associações, realizado audiências públicas e reivindicado a atuação de Assessorias Técnicas Independentes, que permitem elaborar planos de reparação baseados na defesa de direitos. Nessas experiências, muitas pessoas se reconhecem como militantes e assumem a luta por um novo modelo de mineração, para que crimes como os de Mariana e Brumadinho não voltem a ocorrer.”

Esse cenário coloca o Serviço Social diante de enormes desafios. Como já apontava o CFESS Manifesta em 2022, feito em parceria com o CRESS Minas, as chamadas calamidades não devem ser vistas como eventos naturais ou inevitáveis, mas como expressões da questão social na sua forma mais aguda, frutos da lógica capitalista que sacrifica territórios e corpos marcados por classe, raça, gênero e etnia.

“Um dos grandes desafios para a atuação de assistentes sociais neste contexto, é a permanência nos postos de trabalho, pois o processo de reparação tem imposto contratações temporárias e instabilidade que dificultam a criação de vínculos com a população usuária. Soma-se a isso a precariedade das políticas sociais em municípios que, apesar de arrecadar altos valores da CFEM, não oferecem serviços públicos adequados.”, aponta o documento.

A saída para uma atuação efetiva, que contribua para a melhora do cenário e o acesso dessas populações a seus direitos, segundo Kathiuça, passa pela articulação entre a categoria, os movimentos sociais e as universidades públicas. “A principal estratégia é manter a mineração e seus impactos na pauta cotidiana da categoria, seja nos Núcleos de Assistentes Sociais (NAS), seja nos conselhos municipais. Além disso, é fundamental produzir novos conhecimentos a partir da pesquisa acadêmica e da experiência profissional nos territórios, o que pode ampliar as possibilidades de defesa de direitos numa perspectiva crítica e anticapitalista”, completa.

Leia aqui o CFESS Manifesta “Situações de desastres requerem assistentes sociais”, de 2022.

Esta matéria integra o Boletim Conexão Geraes. Leia o conteúdo na íntegra!

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