“Um grande despertar feminista está sendo produzido”, diz Marcia Tiburi

31/12/1969 “Um grande despertar feminista está sendo produzido”, diz Marcia Tiburi

“No geral, vemos que a violência contra as mulheres continua a crescer, enquanto seu lugar no parlamento continua a diminuir. Para mim, a maior questão a ser enfrentada pelas mulheres é justamente a sua irrepresentabilidade na política. Fosse diferente, fosse mais significativa até, e teríamos outra sociedade”, problematiza a filósofa e professora Marcia Tiburi.

A reflexão é parte importante de um processo que pensa as mulheres no centro da sua própria mudança, ou seja, enquanto as mulheres não puderem tomar as decisões, dificilmente teremos decisões favoráveis para elas. Com esse entendimento, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC), através da Bancada Feminina, realiza o Seminário “Os Direitos das Mulheres”, no dia 07 de março. A programação do evento prevê a palestra “O direito das mulheres na perspectiva destes tempos”, ministrada por Marcia, às 10h. A entrada é gratuita e aberta ao público.

Em entrevista ao Portal Catarinas, Marcia, fala sobre a luta das mulheres em um contexto de ofensiva conservadora. A autora do livro “Como conversar com um fascista” também levanta questões sobre ataques a direitos e a importância do feminismo.

CATARINAS: Atualmente, quais direitos das mulheres você destacaria que estão sob risco?
MARCIA TIBURI: Se nos referirmos às mulheres brasileiras, a situação é das mais graves. Assim como vários direitos não foram alcançamos até agora, alguns poucos estão em vias de desaparecer. No primeiro caso, refiro-me ao direito ao aborto, à equiparação salarial, no segundo, podemos citar o direito à aposentadoria das mulheres rurais e das professoras. No geral, vemos que a violência contra as mulheres continua a crescer, enquanto seu lugar no parlamento continua a diminuir. Para mim, a maior questão a ser enfrentada pelas mulheres é justamente a sua irrepresentabilidade na política. Fosse diferente, fosse mais significativa até, e teríamos outra sociedade.

CATARINAS: Como tratar a questão do aborto sem deixar que as pessoas caiam na armadilha moral, da “gente de bem”, que defende a ilegalidade da prática?
MARCIA TIBURI: Essa é uma grande questão. O parlamento brasileiro é despreparado para lidar com o problema. A população brasileira nesse aspecto parece bastante conservadora, há pesquisas que demonstram que 80% da população brasileira é contra o aborto. Mas nunca tivemos, por exemplo, um plebiscito para verificar se, de fato, as pessoas não seriam mais razoáveis no momento em que fossem chamadas a opinar com mais cuidado sobre o tema. Isso pode parecer ingênuo, mas é um jeito de introduzir uma questão séria e pouco enfrentada. Muitas pessoas vem falando alto sobre o tema do aborto e muitos outros porque atualmente está na moda bradar e opinar sem conhecimento de causa, seja ele jurídico, médico ou sociológico. Mas se as pessoas entendessem melhor a questão, será que diriam as mesmas coisas?

“Creio que estamos mergulhados na ignorância e na desinformação, assim como na má-fé, e ela é fortemente responsável pelo cenário político e social atual também no que concerne aos direitos das mulheres. Não estou evidentemente defendendo que especialistas resolvam questões que envolvem também não especialistas, estou apenas sugerindo que haja um maior diálogo entre especialistas, intelectuais e as partes interessadas, no caso, sobretudo, as mulheres.

CATARINAS: Na sua avaliação, qual deve ser o impacto do Dia Internacional da Mulher deste ano? Por quê?
MARCIA TIBURI: Há uma grande expectativa para esse 8 de março. A paralisação tem função simbólica e prática ao mesmo tempo. A meu ver o que há de mais instigante nela é a demonstração de que as mulheres estão unidas por sua própria causa. Que as mulheres são causa para elas mesmas. Essa é a grande revolução que nosso momento exige. E ela pode ir bem longe se soubermos e conseguirmos fazê-la avançar.

CATARINAS: Como ampliar a discussão sobre a importância do feminismo nas conquistas de direitos já garantidos e de direitos ainda a ser conquistados?
MARCIA TIBURI: O feminismo é uma luta contra a ignorância. Machismo é, sobretudo, uma ignorância útil. É nesse sentido que falamos em privilégios. Os privilegiados pertencem àqueles que levam vantagens com um sistema de injustiças. Para ampliar a discussão precisamos de mais sabedoria, de mais lucidez, de menos ignorantes úteis produzindo misoginia e violência física e simbólica. A educação e a cultura teriam um grande papel nisso. Creio que um grande despertar feminista está sendo produzido. E é bom não falar alto demais enquanto não tivermos firmado as bases da transformação que está sendo operada pelas feministas em todos os contextos.

CATARINAS: Você recebeu retornos após o seu livro que revelassem mudança de atitude do um-para-com-o-outro a favor do diálogo, da democracia?
MARCIA TIBURI: Há um grande retorno em relação ao Como Conversar Com Um Fascista desde sua publicação em final de 2015. Lembro de uma bem significativa. Um jovem veio pedir meu autógrafo no livro que ele já havia lido naquele momento. Ele me disse que o livro o ajudara a perceber algo que estava acontecendo com ele. Em suas palavras, ele se percebeu em um caminho autoritário, um caminho muito ruim que poderia levar a um desfecho péssimo. O livro o ajudou a pensar melhor. Como escritora e como professora que sou, senti naquele momento que esse trabalho tinha alcançado seu sentido. Necessariamente, como professores, como educadores, como intelectuais, temos a obrigação ética e política de colocar questões para o nosso tempo, de diversas maneiras. Eu espero que esse livro, escrito com tanta simplicidade, tenha alcançado de fato corações e mentes.

 

CATARINAS: Você acredita que a proposta do livro “Como conversar com fascista” tenha alcançado de alguma maneira também os fascistas? Se sim, como percebeu isso na prática?
MARCIA TIBURI: Sim, eles ficaram com ódio. Mas não poderia ser diferente. O fascismo em sua forma contemporânea sobre a qual o livro versa, trata justamente de afetos negativos, tais como o ódio. Quem não for fascista, certamente perceberá o livro como uma livro qualquer, do qual se pode gostar ou não, mas não precisará se manifestar de modo tão hostil e raivoso em relação a ele. Eu soube de gente que entrava em livrarias só para esconder o livro e evitar que ele fosse visto. Outros xingavam a mim e à minha mãe. É curioso o que um livro pode despertar nas pessoas. Penso agora no ateu que entra na livraria e esconde a Bíblia, no moralista que entra na livraria e esconde os livros do Marquês de Sade. Para quem sabe ler o livro do mundo, meia palavra basta.

Fonte: Catarinas.

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